Sunday, October 22, 2006

anywhere out of the world




Era inverno e chovia.
- Cinema?
- Por que não? Ainda temos meia hora. Deve haver bilhetes. Espera, vou à sala buscar as chaves do carro.
Entrou.
As chaves estavam em cima da mesa de vidro. A mão alcançou-as sem dificuldade e tocou ao de leve na tulipa amarela ligeiramente inclinada. Veludo, pensou, como a tua pele. O ar ficou morno e contornou-a como uma onda que lhe provocou um adormecimento dos músculos do pescoço. São as tuas mãos. Há uma dor no estômago que me acerta de vez em quando como o soco de um pugilista, sempre que a saudade aperta. Como as coisas são! A mão, estática, continua a agarrar as chaves do carro que ainda não se moveram da mesa. Como é possível que os desencontros da vida tenham complicado tanto o que estava para acontecer! Ter-me-ei enganado assim tanto? Será que apenas imaginei que existiam tantas coisas maravilhosas onde elas, na realidade, não existiam? Quem és tu, afinal? A minha promessa? O meu fracasso? Os músculos do pescoço foram ficando tensos outra vez. Uma dor fininha descia da testa até ao nariz. As tuas mãos firmes costumavam fazer acalmar esta dor. Os teus braços costumavam pacificar as tempestades da minha dúvida. A dor atingiu os olhos, que se fecharam devagar. Os teus olhos incendeiam sempre a minha imaginação, levam-me sempre aonde eu nunca imaginei poder chegar. Para lá das nuvens, para lá deste mundo, anywhere out of the world. E regressar é bom e doloroso, porque sabemos que haverá um fim para tudo, até para a dor. Um dedo toca o frio da mesa de vidro e a dúvida é como um punhal. Onde estás? Por que me rasgaste e levaste contigo aquilo que não te pertencia? Por que me levaste a mim? E o que fazes com esse eu que está lá fora contigo, enquanto andas de carro ou falas com os amigos? Esse eu e tu vêem juntos a tarde que escurece devagar no verão? E esse eu e tu andam de mãos dadas pela rua, cheiram a terra molhada ou pisam as folhas secas? O que fazes tu comigo? Outra vez a aragem morna a rodear-lhe o pescoço e a percorrer todos os nervos até à ponta gelada dos dedos, onde estão as chaves. Estás aqui comigo e eu não te vejo. Mas sinto os teus lábios moverem-se devagar para dizer aquilo que não queres, porque é mentira, porque sabes que magoa. Outra vez o adormecimento leve que me faz pensar que tudo seria possível se não existissem os outros, se se pensasse que a vida acontece sem avisar. Os dedos esticam-se e a pele do braço volta a tocar a tulipa amarela que se inclina ligeiramente da jarra preta. Morno, ar morno. Onde estás? Os dedos agarram as chaves e a mão levanta-se até à altura do bolso. Sinto a tua mão no cotovelo, em concha, a segurar o meu estremecimento. Estavas sempre lá, eras a companhia do meu pensamento quando ele percorria as ruas sombrias do medo. Por que deixaste que o teu medo fosse mais forte do que o meu pensamento junto do teu? E a dor fininha outra vez na testa. A mão ergue-se até aos olhos para afastar a dor e as chaves que ela segura tilintam baixinho. Podia ser o tilintar do telefone ou da campainha. E seres tu. Sempre tu. Eu corria para a porta e abria-a para tu entrares. Tu dizias: Vamos?
- Vamos. Ainda temos meia hora. Devemos arranjar bilhetes.

2 Comments:

Blogger Abssinto said...

Um texto dos "meus". Quanta nostalgia... Com ou sem companhia para o cinema o Inverno punitivo mas inspirador aí está para nos lembrar de nós. Gostei imenso. Um beijo

8:27 AM  
Blogger magnolia said...

O inverno para mim nunca é punitivo: adoro!
Obrigada pelas palavras de apreço, fazem bem à alma...
Beijos

4:09 PM  

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