Tuesday, October 24, 2006

morning fog 3

Sunday, October 22, 2006

morning fog 2

aviãozinho de papel

anywhere out of the world




Era inverno e chovia.
- Cinema?
- Por que não? Ainda temos meia hora. Deve haver bilhetes. Espera, vou à sala buscar as chaves do carro.
Entrou.
As chaves estavam em cima da mesa de vidro. A mão alcançou-as sem dificuldade e tocou ao de leve na tulipa amarela ligeiramente inclinada. Veludo, pensou, como a tua pele. O ar ficou morno e contornou-a como uma onda que lhe provocou um adormecimento dos músculos do pescoço. São as tuas mãos. Há uma dor no estômago que me acerta de vez em quando como o soco de um pugilista, sempre que a saudade aperta. Como as coisas são! A mão, estática, continua a agarrar as chaves do carro que ainda não se moveram da mesa. Como é possível que os desencontros da vida tenham complicado tanto o que estava para acontecer! Ter-me-ei enganado assim tanto? Será que apenas imaginei que existiam tantas coisas maravilhosas onde elas, na realidade, não existiam? Quem és tu, afinal? A minha promessa? O meu fracasso? Os músculos do pescoço foram ficando tensos outra vez. Uma dor fininha descia da testa até ao nariz. As tuas mãos firmes costumavam fazer acalmar esta dor. Os teus braços costumavam pacificar as tempestades da minha dúvida. A dor atingiu os olhos, que se fecharam devagar. Os teus olhos incendeiam sempre a minha imaginação, levam-me sempre aonde eu nunca imaginei poder chegar. Para lá das nuvens, para lá deste mundo, anywhere out of the world. E regressar é bom e doloroso, porque sabemos que haverá um fim para tudo, até para a dor. Um dedo toca o frio da mesa de vidro e a dúvida é como um punhal. Onde estás? Por que me rasgaste e levaste contigo aquilo que não te pertencia? Por que me levaste a mim? E o que fazes com esse eu que está lá fora contigo, enquanto andas de carro ou falas com os amigos? Esse eu e tu vêem juntos a tarde que escurece devagar no verão? E esse eu e tu andam de mãos dadas pela rua, cheiram a terra molhada ou pisam as folhas secas? O que fazes tu comigo? Outra vez a aragem morna a rodear-lhe o pescoço e a percorrer todos os nervos até à ponta gelada dos dedos, onde estão as chaves. Estás aqui comigo e eu não te vejo. Mas sinto os teus lábios moverem-se devagar para dizer aquilo que não queres, porque é mentira, porque sabes que magoa. Outra vez o adormecimento leve que me faz pensar que tudo seria possível se não existissem os outros, se se pensasse que a vida acontece sem avisar. Os dedos esticam-se e a pele do braço volta a tocar a tulipa amarela que se inclina ligeiramente da jarra preta. Morno, ar morno. Onde estás? Os dedos agarram as chaves e a mão levanta-se até à altura do bolso. Sinto a tua mão no cotovelo, em concha, a segurar o meu estremecimento. Estavas sempre lá, eras a companhia do meu pensamento quando ele percorria as ruas sombrias do medo. Por que deixaste que o teu medo fosse mais forte do que o meu pensamento junto do teu? E a dor fininha outra vez na testa. A mão ergue-se até aos olhos para afastar a dor e as chaves que ela segura tilintam baixinho. Podia ser o tilintar do telefone ou da campainha. E seres tu. Sempre tu. Eu corria para a porta e abria-a para tu entrares. Tu dizias: Vamos?
- Vamos. Ainda temos meia hora. Devemos arranjar bilhetes.

é

É ridículo
diz o orgulho
É leviano
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor

Erich Fried

morning fog

life




"The history of evolution is that life escapes all barriers. Life breaks free. Painfuly, perhaps even dangerously. But life finds a way."

Michael Crichton

Oratio Amatoria

Estás donde estás. Te suceda lo que te suceda yo te deseo el bien mayor, la bondad imposible de este mundo. Te deseo el antiguo verano y su agua dulce. El oro que mereces, un bonancible viaje, y el amor que se ya, (inútilmente ahora) que entonces te tenia.

Luis Antonio de Villena

Saturday, October 21, 2006

frescura

- Ando à procura da palavra-chave.
Falou só para o umbigo, já que as paredes não têm ouvidos. Esticou-se na cadeira de baloiço, mexeu os dedos dos pés, pousou a cabeça e ficou-se às voltas com as voltas do pensamento. O corpo, por dentro, tinha cores e formas indefinidas. Misturavam-se, encolhiam-se, distendiam-se e nada de virem umas gotas frescas de água para apagar aquele fogo.
Levantou-se e foi buscar uma pastilha. Devia estar com azia. O corpo estava em brasa. E, no entanto, estava frio. O inverno já durava há cem anos, as nuvens constantes já a sufocavam. Tinha vontade de dormir e acordar diferente, outra pessoa. Outra pessoa não, disse-lhe o umbigo, com outra vida.
O fogo é imprescindível. E irreversível.

língua

Falamos línguas diferentes, somos estrangeiros um ao outro, pensamos de modo diferente, tanto quanto as diferenças de língua podem explicar as diferenças de pensamento, que é o que se aprende nos livros, e, no entanto, se puder lembrar de como te olhei no fundo dos olhos, não notei diferença nenhuma - o medo e o fogo estavam os dois lá e vinham juntos com uma frescura de brisa. E a inocência... Estava lá a inocência pura e intacta como eu me lembro de a sentir. Sem língua, sem normas, sem palavras para atrapalhar o que queremos dizer.

Thursday, October 19, 2006

Firenze

Mãos. Dedos. Movimentos que falam da alma. Quantas vezes mãos têm acariciado o meu corpo e provocado sensações tão diversas! Sempre olho para as mãos porque dizem mais do que as palavras.
As mãos dele são fortes e tímidas. Têm gestos de uma delicadeza contida, de uma sensibilidade nem sempre com possibilidade de se exprimir. Um dedo partido, um misto de orgulho e embaraço. O que escondem as tuas mãos? Mostram o respeito de quem trabalha duro na terra, de quem está em perfeita sintonia com a natureza, de quem faz parte dela. E no entanto são tímidas, aqui, no centro de uma cidade cosmopolita - tentam exprimir uma realidade que não cabe por entre estes muros seculares, precisam de mais espaço, de mais confiança. E são ternas, sensíveis, à procura de uma outra sensibilidade, à procura de plenitude.
Tudo isto foi passando pela minha cabeça enquanto olho o dedo partido. E de repente acho que preciso de tocar aquelas mãos. Finjo ver o dedo, mas mantenho-as nas minhas alguns segundos, um pouco mais do que seria normal para uma desconhecida, um pouco menos do que eu gostaria.
- Acreditas em magia? pergunta, a voz mais baixa agora, quase como se não tivesse sido ele a fazer a pergunta, como se ela tivesse vida própria e as palavras se tivessem formado apenas quando ele as pronunciou.
Mas eu levo a pergunta a sério. Sim, acredito que nos faz falta acreditar em magia, neste século em que nos dão de graça explicações científicas para tudo, mesmo quando não as pedimos. Acredito na magia do homem e da natureza, acredito na magia que as nossas mãos têm ao tocar-se. Acredito que não posso compreender tudo com a cabeça, que posso muitas vezes compreender com o coração.

where?


Are you
where you are?
Are you not
where you are?
Go to
where you are.
I 'll meet you -
there.

Saturday, October 14, 2006

mar








Hoje fui até ao mar. A água estava morna, mas as ondas batiam na praia enfurecidas. Deixei por duas ou três vezes que desabassem uma torrente de fúrias sobre mim. Fustigaram-me o corpo com a areia que vinha junta - milhões de picadas sentidas quase uma a uma para me fazerem lembrar. Por momentos enfrentei-as como os toureiros nas arenas, as mãos na cinta, os pés afastados por causa do equilíbrio. Mas a frescura foi mais forte. Como é sempre em mim.

Thursday, October 12, 2006

Homenagem a Reinaldo Ferreira

TIMBRE

Eu,
morreu.
Só há ideal
no plural.
Tecidos
como os fios que há nos linhos.
Parecidos
entre nós como dois olhos.
Somos do tempo de viver aos molhos
para morrer sozinhos.