Sunday, July 27, 2008

ninguém viu por aí uns olhos verdes?
não sei onde os pus...

Saturday, February 09, 2008

rosa



a minha rosa é minha

e desfolho-a para ti
mas ela continua minha

fico à espera que a toques
que deslizes os teus dedos
no veludo

e quando o fazes é tua
e é minha

desfolho-a e ela volta a ser minha

a minha rosa renasce
para ser tua
e minha

Sunday, March 11, 2007

Renascimento


Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio, nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus dons os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possuí-los. Encerra a natureza outras espécies, em leis por mim estabelecidas. Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio, em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no centro do mundo, para que melhor pudesses contemplar o que o mundo contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou um hábil escultor, dês acabamento à forma que te é própria.

Giovanni Pico della Mirandola
Oratio De Hominis Dignitate

Sunday, December 31, 2006

1 de Janeiro

celebro-me
celebro a vida

Friday, December 08, 2006



Plena mulher, maçã carnal, lua candente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que escura claridade tens entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com os sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar afogado e bruscas tormentas de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios e aldeias diminutas,
e o fogo genital transformado em delícia

corre pelos delgados caminhos que há no sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser mais que um raio na sombra.

Pablo Neruda

Saturday, November 25, 2006

natal


A sociedade de consumo e os seus fatigados cidadãos tinham mais em que pensar. Embora ainda faltasse um mês para o Natal, a orgia publicitária tinha já começado e a histeria aquisitiva alastrava, rápida e implacável como a peste, pelas ruas engrinaldadas da zona comercial. A epidemia varria tudo à sua frente e não era possível fugir-lhe. Abria caminho para o interior das casas e ia envenenando tudo e todos. As crianças berravam até à exaustão e os pais de família endividavam-se até às férias seguintes. A gigantesca armadilha legal do crédito fazia vítimas por toda a parte. Os hospitais enfrentavam um surto anormal de enfartes de miocárdio, crises de nervos e úlceras duodenais.

Maj Sjöwall e Per Wahlöö, O polícia que ri

Tuesday, November 07, 2006

ninho




eu sou o ninho
em que te podes aninhar